Ela acordava
novamente no sofá. O braço jogado ao chão, os dedos raspando aquele piso de madeira imundo, os pés para cima, o lábio mordido – uma delícia de mordida,
lembrava ela, vagamente. O mal-jeito fazia-lhe doer todo o corpo e a
dor de cabeça interrompia os caminhos da sua memória de lhe trazer mais
momentos bons com aquele menino. Foi tomar banho, enquanto ele, aquele
menino, longe dela, longe de si mesmo pensa em outra menina. Ele fuma e
balança seu whisky, sentado na cama, olhando pela janela o sol clarear a
cidade. Pensa em tudo um pouco para tentar solucionar suas dúvidas. Seus argumentos
mudam como as nuvens. Às vezes chovem. Outras vezes, eles,
tempestades, gritam raios e trovões.
Ela
se masturba no chuveiro, lembrando algumas palavras sujas que ele
baforava quente em seu ouvido. A água morna – os lábios dele nos seus
seios, suas mãos (as mãos dele), percorriam cada minúsculo milímetro de
seu corpo com uma calma textura macia. O calor do
movimento tinha gemidos e tremores prazerosos de alívios e
reticências. Ela se lembrava que não lembrava do gosto dele, e batia a
cabeça na parede.
Ele
lembrava a força com que ela segurava sua cabeça com as duas mãos e a puxava
contra a dela com violência dita "engraçada". Batiam olhando nos olhos e riam rindo nos
risos. Ele a achava enigmática demais. E ele também se achava bom em soluções. Ela
queria achar algo dele, mas não encontrava memória suficiente. Ele achava que gostava dela. Depois do banho
ela se vestiu e foi trabalhar. Ele foi dormir, deixando o whisky na
janela. A cidade já estava clara.
Essa
noite ele queria vê-la em seus olhos naturais, com toda força da sua
voz, mas ela já estava derretendo. Ele achou divertido antes do começo, mas teve mais
uma noite de beijos insípidos. E ela teve mais uma noite sem lembranças.
Ele quis novamente decifrar o enigma dela. E novamente acabou
amanhecendo sozinho, fumando, bebendo whisky e acariciando as nuvens
rosas do amanhecer com olhares melancólicos. Ele
lembrava-se, na sacada do apartamento dela, que queria chamá-la para ver
um gato caçar um passarinho na praça do final da rua. Ele lembrava que
queria chamá-la para ver o sol nascendo atrás do prédio azul, mas teve
que ajudá-la a se levantar do chão.
Ela
acordava novamente no sofá, sem lembranças, sem gostos, sem desgostos,
dores, odores. Ela simplesmente acordava porque era um novo dia. Um dia
qualquer. Ele acordava sem querer. Preferiria manter-se imóvel num sono
sem sentimentos. Ele não tinha medo de se apaixonar, pois sabia que
daquele coraçãozinho murcho só soprava saudade. Inventada ou não. Mas
achava que ela tinha medo de se apaixonar. Ela
achava que ele tinha gostado, e queria vê-lo de novo, mesmo que
acabasse esquecendo do toque sutil dos seus dedos elogiando seus olhos,
seus lábios, seu sorriso, as estrelas que brilhavam sobre ela. E ela
tinha medo de se apaixonar. Por isso ela não gostava de pensar por muito
tempo, mesmo não sabendo. Mesmo não querendo saber.
Ele
gostava de lembrar e não sabia esquecer. Mas não houve nunca amor em
suas memórias; só saudade de amor. Ela não sabia o que era lembrar, e
ainda sim esquecia: mas ela sabia o que era amor. Por isso não pensava e
nem gostava de lembrar muito. Ele não sabia o que era amor. E pensar
muito fez com que ele nunca descobrisse.
Rodrigo Lopes
25/01/2006