Quarta-feira, Maio 30, 2012

Imbecil

O que mora no meu corpo não visita a minha alma.
Pertence, mas não está. São dois universos distintos, um sobre o outro, que não se tocam, percebe? Eu posso te tocar agora, meu corpo quer te tocar agora, quer sentir o teu corpo o aquecer, mas tua alma jamais atingirá a minha. Percebe?
Você só quer me comer?
Sim.
Por que não fala logo, imbecil?


Domingo, Maio 20, 2012

Verdade

Você conhece uma pessoa, passa horas conversando, rindo, mudando de assunto, dançando, rindo mais um pouco, e dançando mais um pouco, mão na cintura, no ombro, na mão, e quase, mas depois de não dormir com ela, acorda e descobre que era tudo mentira, era tudo mentira, era tudo mentira, era tudo mentira, tudo mentira, tudo mentira, tudo mentira, mentira, mentira, mentira.

E então volta a tentar descobrir se há a verdade.


Sexta-feira, Maio 11, 2012

Anedota de mujique nº 3


Durante a terceira polca, a cigana sorri olhando maliciosamente para o contador recém-divorciado sentado sobre uma cadeira de três pernas no canto do salão escuro, imerso na fumaça de seus cigarros. Ao perceber o sorriso dela, ele levanta-se envergonhado da sua embriaguez e daqueles belos olhos negros, deixando escapulir uma última lágrima e um último sorriso.
- Dança, que a dor da cabeça vai para os pés, e é quando você pode escapulir dela, a cigana sussurra aproximando seus  lábios vermelhos, roçando as pálpebras cinzas dele.
- Nunca fui dançarino, ele responde entre um gole de vodca e outro de fumaça.
- Eu nunca tive dor enquanto mantive os pés no ar, ela responde, girando a saia, os cabelos e os calcanhares.

A música acaba e ele ainda está parado no meio do salão enquanto todos celebram extasiados, e quando a banda prepara a nova obra, sorrateiramente ele desvia-se para o toalete, onde consegue enforcar-se amarrando seu cachecol numa viga, deixando sua bebida, seu cigarro e um bilhete que dizia: "Por obséquio, me enterrem com os pés para fora da terra. Muito obrigado."


Rodrigo Lopes
11/05/12

Sexta-feira, Abril 13, 2012

Nankin

Que hoje eu sonhei com um bico de pena e nankin. Não escrevia nada: tatuava no papel algum rabisco que se transformava em dor. Quando secava, eu coçava a casca qual uma ferida, que sangrava novamente aquela tinta negra. O que escorria, aquilo sim, eram memórias de alguma escrita vertida novamente no branco de um papel para pintar cicatriz.
Enviei-lhe numa carta, selada com a saliva de um beijo. Ela a recebeu com a chuva, disse-me o carteiro, mas mesmo apertando contra o peito para protegê-la, molhou-se todo o papel, com todo desenho, com toda palavra, desmanchando-se em seus dedos e seios.
Nessa mistura de tinta, saliva e de chuva desmaiando sobre seu colo nasceu a minha saudade. Ela lavou-lhe todo seu corpo, esgueirou-se pela calçada e formou-se poça d'água num azulejo quebrado. Ela juntou as mãos em conchinha, agachou-se e bebeu um golinho. Seus dedos e língua e boca ficaram amarelos, disse-me o carteiro. E ficará, respondi.

Enquanto não existir o amor, existirá a saudade.
13/04/12

Quinta-feira, Abril 05, 2012

Anedota de mujique nº 2:

Depois de tirar, às lágrimas, a barba de 45 anos, o mímico fracassado olhou-se no espelho e percebeu que não tinha mais boca.

E sorriu, o desbocado, sentindo-se, enfim, realizado.

Domingo, Março 18, 2012

Ele tinha tempo. Ela tinha medo.


         Ela acordava novamente no sofá. O braço jogado ao chão, os dedos raspando aquele piso de madeira imundo, os pés para cima, o lábio mordido – uma delícia de mordida, lembrava ela, vagamente. O mal-jeito fazia-lhe doer todo o corpo e a dor de cabeça interrompia os caminhos da sua memória de lhe trazer mais momentos bons com aquele menino. Foi tomar banho, enquanto ele, aquele menino, longe dela, longe de si mesmo pensa em outra menina. Ele fuma e balança seu whisky, sentado na cama, olhando pela janela o sol clarear a cidade. Pensa em tudo um pouco para tentar solucionar suas dúvidas. Seus argumentos mudam como as nuvens. Às vezes chovem. Outras vezes, eles, tempestades, gritam raios e trovões.
Ela se masturba no chuveiro, lembrando algumas palavras sujas que ele baforava quente em seu ouvido. A água morna – os lábios dele nos seus seios, suas mãos (as mãos dele), percorriam cada minúsculo milímetro de seu corpo com uma calma textura macia. O calor do movimento tinha gemidos e tremores prazerosos de alívios e reticências. Ela se lembrava que não lembrava do gosto dele, e batia a cabeça na parede.
Ele lembrava a força com que ela segurava sua cabeça com as duas mãos e a puxava contra a dela com violência dita "engraçada". Batiam olhando nos olhos e riam rindo nos risos. Ele a achava enigmática demais. E ele também se achava bom em soluções. Ela queria achar algo dele, mas não encontrava memória suficiente. Ele achava que gostava dela. Depois do banho ela se vestiu e foi trabalhar. Ele foi dormir, deixando o whisky na janela. A cidade já estava clara.
Essa noite ele queria vê-la em seus olhos naturais, com toda força da sua voz, mas ela já estava derretendo. Ele achou divertido antes do começo, mas teve mais uma noite de beijos insípidos. E ela teve mais uma noite sem lembranças. Ele quis novamente decifrar o enigma dela. E novamente acabou amanhecendo sozinho, fumando, bebendo whisky e acariciando as nuvens rosas do amanhecer com olhares melancólicos. Ele lembrava-se, na sacada do apartamento dela, que queria chamá-la para ver um gato caçar um passarinho na praça do final da rua. Ele lembrava que queria chamá-la para ver o sol nascendo atrás do prédio azul, mas teve que ajudá-la a se levantar do chão.
Ela acordava novamente no sofá, sem lembranças, sem gostos, sem desgostos, dores, odores. Ela simplesmente acordava porque era um novo dia. Um dia qualquer. Ele acordava sem querer. Preferiria manter-se imóvel num sono sem sentimentos. Ele não tinha medo de se apaixonar, pois sabia que daquele coraçãozinho murcho só soprava saudade. Inventada ou não. Mas achava que ela tinha medo de se apaixonar. Ela achava que ele tinha gostado, e queria vê-lo de novo, mesmo que acabasse esquecendo do toque sutil dos seus dedos elogiando seus olhos, seus lábios, seu sorriso, as estrelas que brilhavam sobre ela. E ela tinha medo de se apaixonar. Por isso ela não gostava de pensar por muito tempo, mesmo não sabendo. Mesmo não querendo saber.
         Ele gostava de lembrar e não sabia esquecer. Mas não houve nunca amor em suas memórias; só saudade de amor. Ela não sabia o que era lembrar, e ainda sim esquecia: mas ela sabia o que era amor. Por isso não pensava e nem gostava de lembrar muito. Ele não sabia o que era amor. E pensar muito fez com que ele nunca descobrisse.

Rodrigo Lopes 
25/01/2006

Quinta-feira, Março 15, 2012

A lua grávida

        

          Quando a nuvem se acabou em chuva, olhou para o céu e viu que a lua cheia pariu uma estrela cadente. Terminou rápido seu cigarro e esparramou a fumaça para cima, pedindo: "- Que me aponte a direção para o meu mundinho."

          Olhando fixo para a estrela, entre a fumaça que acabou de libertar de seu peito vazio, viu que ela mudou de direção por um momento e parou. Fixou-se ali, etérea, atrás da fumaça, essa que foi se aglomerando num globo, que condensando, tornou-se gota e, refletindo como prisma o brilho da estrela no meio no universo, mostrou-lhe que ali estava seu bairro, cidade, distrito, estado, nação, povo, humanidade, seu deus. Naquela gota-estrela, que caiu dentro da sua boca, sobre a aspereza da língua, cantando o gosto amargo de alguém que procura desnudar um segredo que deveria manter-se sempre mistério.

          A gota-estrela-cadente sumiu, e a lua agora minguava.

15/03/12